Em 12 de fevereiro a equipe da Rádio Gaúcha esteve no Pão dos Pobres para um encontro com as restauradoras do Relógio do Campanário do Pão dos Pobres. A entrevista rendeu matérias na rádio (confira aqui) e no jornal Zero Hora, publicada em 19 de fevereiro. Leia abaixo o conteúdo:
Talento de família: irmãs ajustam o relógio da Fundação Pão dos Pobres
As relojoeiras Fernanda e leda Ordahy se dedicam ao conserto e restauro de equipamentos antigos no Rio Grande do Sul. Coube a elas, que aprenderam o ofício com o pai, o desafio de regular o item centenário que marca as horas ao som de sinos em uma das mais tradicionais instituições do Estado.
O relógio centenário de carrilhão (que marca as horas ao som de sinos) do campanário da Fundação Pão dos Pobres, em Porto Alegre, passou por regulagem.
Situado no quarto andar da instituição de 130 anos, o equipamento tem conexão com os cinco sinos de bronze por meio de uma estrutura de engrenagens.
O relógio foi fabricado em 1927 pela empresa Lucien Terraillon e Petitjean, na cidade de Perrigny, na França.
Três anos depois, foi instalado na edificação da capital gaúcha.
O conserto foi executado pelas irmãs Fernanda, 48 anos, e Teda Ordahy, 63, da empresa Casa Sheik, fundada há mais de 70 anos, em Porto Alegre.
As duas são referência no conserto e restauro de relógios antigos desse porte no Rio Grande do Sul.
Segundo Ieda, o pai delas era ainda jovem quando aprendeu a profissão em Porto Alegre.
Na década de 1950, ele foi para São Paulo, onde especializou-se e montou uma joalheria.
Uma década depois, o pai retornou à Capital, onde abriu uma relojoaria.
– Nós acabamos na profissão porque nos criamos ao lado dele.
Sempre ajudando, alcançando uma ferramenta e puxando uma corda – recorda Ieda.
Sobre lidar com relógios centenários e robustos, Ieda fala da reação dos clientes:
– As pessoas se espantam quando chegam na loja e veem duas mulheres consertando. Com certeza, aqui no Estado, somos apenas nós duas.
“Experiência única”
O relógio passou por ajuste da altura dos cabos de aço para sincronizar a sonoridade correta e regulagem.
Os sinos emitem notas diferentes, e o conjunto produz a melodia Westminster Quarters ou Carrilhão de Westminster, semelhante a do Big Ben, em Londres, na Inglaterra.
Por enquanto, o badalar está programado para ocorrer a cada 15 minutos.
– Cada relógio é uma experiência única. Cada um tem um detalhe típico dele.
Eu diria que o principal (para ajustálos) é a paciência.
A gente senta, bota para funcionar e descobre, no detalhe, o defeito – explica Fernanda.
Também foram efetuados o reposicionamento do cabo de aço na roldana no setor central do movimento, a reestruturação do cabo de aço da batida das horas e a sincronização e interligação dos ponteiros das duas torres para restabelecer a precisão.
– Esse relógio (precisou ser ajustado) em vários pontos que estavam fora do lugar. Mas não foi preciso trocar peças.
O grande desafio foi fazer que voltasse a funcionar a pleno, sem ter que mexer muito na estrutura do relógio – prossegue Fernanda.
Além disso, foram realizadas a limpeza e a lubrificação da máquina, com óleo e graxa; e a higienização e lustro da caixa de madeira.
A estrutura onde fica o relógio mede cerca de Im70cm de altura por Imn80cm de largura.
O trabalho no relógio do Pão dos Pobres foi executado pela dupla entre os dias 10 e 31 de janeiro.
As irmãs, que também lidam com relógios mais simples, já consertaram, no passado, o situado no prédio da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
– Para nós foi um prazer consertar o relógio (do Pão dos Pobres). E foi um desafio também – conclui.
Obras 80% concluídas
Conforme o arquiteto Lucas Volpatto, a obra de restauração da fachada do Pão dos Pobres está “80% concluída”.
A estimativa é de que, em maio, todas as fachadas estejam entregues e o sino tocando.
– Aí a gente segue só com a restauração e a implantação do Memorial do Pão dos Pobres, que foi resgatado da enchente de 2024.
Estava debaixo da lama e agora estamos resgatando – afirma Volpatto.
A restauração começou em 2022.
Porém, a primeira etapa ocorreu ainda antes, em 2017, quando houve reforço do solo.
A cobertura da edificação foi trabalhada em 2018 e 2019.
Em relação ao relógio, ainda haverá uma segunda etapa de trabalho, quando o aparelho passará pelo processo de mecanização.
O arquiteto enaltece a preservação de um objeto centenário de representatividade afetiva para a instituição: – Não restauramos só uma peça.
A gente restaura toda uma história.
Desde a empresa que fabricou, de quem importou e do irmão que pensou em colocar aqui.
E dessas irmãs restauradoras, que hoje trazem de volta esse som que foi escutado há quase cem anos.
O prédio onde o aparelho está acomodado foi projetado em 1925 pelo arquiteto alemão Joseph Franz Lutzenberger.
A regulagem do relógio integra o projeto Um Pão para partilhar: Restauração das fachadas internas da Fundação O Pão dos Pobres de Santo Antônio.
A iniciativa tem financiamento da Lei de Incentivo à Cultura /PróCultura, do governo do Estado, e patrocínio de empresas.